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Os Arquétipos da Anima e do Animus (Jung)

Esses são trechos removidos diretamente do livro O Eu e o inconsciente de Jung.

 

Os Arquétipos da Anima e do Animus

Entre os espíritos possíveis, os espíritos dos pais são praticamente os mais importantes; daí a difusão universal do culto dos antepassados. Deste modo, as imagos parentais se tornam estranhas, transferidas para uma espécie de “exterior” psíquico. Na vida do homem adulto, a mulher ocupa o lugar dos pais, como influência do ambiente mais próximo. Ela acompanha o homem e lhe pertence, na medida em que partilhar de sua vida e for mais ou menos da mesma idade; não é superior a ele pela idade, pela autoridade ou pela força física.

É, porém, um fator muito influente e, como os pais, gera uma imago de natureza relativamente autônoma. Esta imago, no entanto, não deve ser rompida como a dos pais; deve ser conservada na consciência do homem e a ela associada. A mulher, com sua psicologia tão diversa da psicologia masculina, é e sempre foi uma fonte de informação sobre as coisas que o homem nem mesmo vê. É capaz de inspirá-lo e sua capacidade intuitiva, muitas vezes superior à do homem, pode adverti-lo convenientemente. Seu sentimento, orientado para as coisas pessoais, é apto para indicar-lhe caminhos; sem essa orientação, o sentimento masculino, menos orientado para o elemento pessoal, não os descobriria. O que Tácito diz sobre as mulheres germânicas é muito procedente no que a isto se refere.

Reside aqui, sem dúvida, uma das principais fontes da qualidade feminina da alma. Mas, ao que parece, não é a única fonte. Não há homem algum tão exclusivamente masculino que não possua em si algo de feminino. O fato é que precisamente os homens muito masculinos possuem (se bem que oculta e bem guardada) uma vida afetiva muito delicada, que muitas vezes é injustamente tida como “feminina”. O homem considera uma virtude reprimir da melhor maneira possível seus traços femininos. Analogamente, a mulher, até há pouco tempo, considerava inconveniente ser varonil.

A repressão de tendências e traços femininos determina um acúmulo dessas pretensões no inconsciente. A imago da mulher (a alma) torna-se, com a mesma naturalidade, o receptáculo de tais pretensões; por isso, o homem, em sua escolha amorosa, sente-se tentado a conquistar a mulher que melhor corresponda à sua própria feminilidade inconsciente: a mulher que acolha prontamente a projeção de sua alma. Embora uma escolha desse tipo possa ser considerada e sentida como um caso ideal, poderá também representar a opção do homem por seu lado fraco. (Isto esclareceria muitos casamentos estranhos.)

Há uma imagem coletiva da mulher no inconsciente do homem, com o auxílio da qual ele pode compreender a natureza da mulher. Esta imagem herdada é a terceira fonte importante da feminilidade da alma.

Na concepção oriental não aparece o conceito da anima, tal como o estabelecemos aqui; assim, também falta, logicamente, o conceito da persona. Tal fato não parece ser um acaso, pois, como já indiquei, há uma relação compensatória entre persona e anima.

A persona é um complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e por outro lado a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo. Só quem estiver totalmente identificado com a sua persona até o ponto de não conhecer-se a si mesmo, poderá considerar supérflua essa natureza mais profunda. No entanto, só negará a necessidade da persona quem desconhecer a verdadeira natureza de seus semelhantes.

A sociedade espera e tem que esperar de todo indivíduo o melhor desempenho possível da tarefa a ele conferida; assim, um sacerdote não só deve executar, objetivamente, as funções do seu cargo, como também desempenhá-las sem vacilar a qualquer hora e em todas as circunstâncias. Esta exigência da sociedade é uma espécie de garantia: cada um deve ocupar o lugar que lhe corresponde, um como sapateiro, outro como poeta. Não se espera que alguém seja ambas as coisas. Nem é aconselhável que o seja, pois seria estranho demais para os outros.

Tal indivíduo, por ser “diferente”, suscitaria a desconfiança. No mundo acadêmico seria considerado um “dilettante”; politicamente, um “valor imponderável”; religiosamente, um “livre pensador”; em resumo, a suspeita de inconsistência e incompetência cairia sobre ele, uma vez que a sociedade está certa de que só um sapateiro que não seja poeta fará com perícia bons sapatos. A clareza da apresentação pessoal é algo praticamente muito importante, pois a sociedade só reconhece o homem médio, isto é, aquele que tem só uma coisa na cabeça, porque se tivesse duas não realizaria um trabalho apreciável: seria demais. Nossa sociedade está orientada indubitavelmente para ideais dessa ordem. Não é de estranhar-se, portanto, que para se chegar a alguma coisa se deva tomar em consideração tais exigências.

É claro que como individualidade ninguém pode adaptar-se por completo a essas expectativas; daí a necessidade inegável de construir-se uma personalidade artificial. As exigências do decoro e das boas maneiras se incumbem do resto, para incitar ao uso de um tipo de máscara adequada. Atrás desta última, forma-se então o que chamamos de “vida particular”. A separação da consciência em duas figuras que às vezes diferem uma da outra de um modo quase ridículo é um fato bastante conhecido e constitui uma operação psicológica decisiva, que não deixa de ter consequências sobre o inconsciente.

Essas identificações com o papel social são fontes abundantes de neuroses. O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê-lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios etc. O “homem forte” no contexto social é, frequentemente, uma criança na “vida particular”, no tocante a seus estados de espírito. Sua disciplina pública (particularmente exigida dos outros) fraqueja lamentavelmente no lar e a “alegria profissional” que ostenta mostra em casa um rosto melancólico. Quanto à sua moral pública “sem mácula”, tem um aspecto estranho atrás da máscara – e não falemos de atos, mas só de fantasias: suas mulheres teriam muitas coisas para contar. Quanto ao seu abnegado altruísmo, a opinião dos filhos é outra.

O indivíduo tende a identificar-se com a máscara impelido pelo mundo, mas também por influências que atuam de dentro. “O alto ergue-se do profundo”, diz Lao-Tsé. É do íntimo que se impõe o lado contrário, tal como se o inconsciente oprimisse o eu com o mesmo poder que a persona exerce sobre ele. À falta de resistência exterior contra a sedução da persona, corresponde uma fraqueza interior relativa às influências do inconsciente. O papel desempenhado fora é atuante e forte, ao passo que dentro vai-se desenvolvendo uma fraqueza efeminada contra todas as influências do inconsciente: estados de espírito momentâneos, caprichos, angústias e uma sexualidade efeminada (que culmina na impotência) passam, pouco a pouco, para o primeiro plano.

A persona, imagem ideal do homem tal como ele quer ser, é compensada interiormente pela fraqueza feminina; e assim como o indivíduo exteriormente faz o papel de homem forte, por dentro se torna mulher, torna-se anima, e é esta que se opõe à persona. O íntimo é obscuro e invisível para a consciência extrovertida, principalmente para o indivíduo que tem dificuldade em reconhecer suas fraquezas, por haver-se identificado com a persona. Portanto, o contrário da persona – a anima – também permanece totalmente no escuro e se projeta.

É então que o herói cai sob o jugo da mulher. Nesta situação, se aumentar em demasia o poder desta última, ela não o suportará. Tomada por um sentimento de inferioridade, fornecerá ao homem a prova desejada: não é ele o herói, o indivíduo mesquinho em sua “vida particular”, e sim ela. Por seu lado, esta nutrirá a ilusão, atraente para muitas, de que pelo menos se casou com um herói sem que a própria insignificância a preocupe. A este jogo ilusionista se dá muitas vezes o nome de “conteúdo vital”.

É importante para a meta da individuação, isto é, da realização do si-mesmo, que o indivíduo aprenda a distinguir entre o que parece ser para si mesmo e o que é para os outros. É igualmente necessário que conscientize seu invisível sistema de relações com o inconsciente, ou seja, com anima, a fim de poder diferenciar-se dela. No entanto, é impossível que alguém se diferencie de algo que não conheça. No que concerne à questão da persona, é fácil explicar ao indivíduo que ele e seu cargo são duas coisas diferentes. Mas no que se refere à anima, a diferenciação é mais difícil pelo fato desta ser invisível.

Em primeiro lugar devemos lembrar-nos do preconceito de que tudo o que vem de dentro brota do fundamento essencial da pessoa. O “homem forte” concordará talvez com a acusação de que é indisciplinado na “vida particular”, alegando ser esse o seu fraco, e com o qual, de certa forma, se faz solidário. Tal tendência revela um legado cultural, que não deve ser negligenciado. Como ele mesmo reconhece, sua persona ideal é responsável por sua anima não menos ideal; desse modo, seus ideais são abalados: o mundo se torna ambíguo e ele mesmo se torna ambíguo.

Começa a duvidar do bem e, o que é pior, começa a duvidar de sua própria boa intenção. Se pensarmos como são poderosos os pressupostos históricos a que se prende nossa ideia particular do que vem a ser uma boa intenção, compreenderemos que, em benefício de nossa concepção atual do mundo, é mais agradável acusarmo-nos de fraqueza pessoal do que duvidar da força dos ideais.

Os fatores inconscientes são realidades determinantes, do mesmo modo que os fatores que regem a vida da sociedade. Ambos têm um caráter coletivo. Assim, tanto posso distinguir entre o que eu quero e o que o inconsciente me impõe, como perceber o que o meu cargo exige de mim e o que eu desejo.

A primeira coisa evidente é a incompatibilidade das pretensões exteriores e interiores, ficando o eu entre ambas, como entre o martelo e a bigorna. Em face deste eu, que na maioria das vezes não passa de um simples joguete das pretensões referidas, há uma instância cuja definição não é fácil; gostaria de não designá-la pelo nome insidioso de “consciência”, se bem que esta palavra, em seu melhor significado, sirva muito bem para indicar essa instância. Spittelerdiz com muito humor o que essa “consciência” se tornou, em nós.

Evitemos, portanto, na medida do possível, este significado particular. Será melhor termos presente aquele trágico jogo de oposições entre o dentro e o fora (representado no Jó e no Fausto como aposta divina): é este, no fundo, o processo energético da vida, a tensão de opostos indispensável para a autorregulação. Mas por diferentes que sejam, em aparência e propósitos, esses poderes antagônicos, no fundo ambos querem e significam a vida do indivíduo; oscilam em torno de sua vida, como se esta fosse o fiel a balança. E justamente porque se relacionam entre si, tendem a unificar-se num sentido mediador; por assim dizer, este último nasce necessariamente do indivíduo, voluntária ou involuntariamente, razão pela qual é por ele pressentido. Tem-se o sentimento íntimo do que deveria ser e do que pode ser. Desviar-se de tal pressentimento significa extravio, erro e doença.

Não é por acaso que da palavra “persona” derivam os conceitos modernos de “pessoal” e de “personalidade”. Assim como posso afirmar que meu eu é pessoal, ou que é uma personalidade, também posso dizer, no que se refere à minha persona, que constitui uma personalidade com a qual me identifico num grau maior ou menor.

O fato de que deva, então, constatar em mim duas personalidades, nada tem de estranho, uma vez que todo complexo autônomo ou relativamente autônomo tem a particularidade de apresentar-se como personalidade, ou melhor, personificado. Onde pode observar-se tal fenômeno, com uma ênfase especial, é nas assim chamadas manifestações espíritas da escrita automática e outras semelhantes.

As proposições registradas são sempre declarações pessoais na forma da primeira pessoa, em eu, como se por detrás de cada fragmento dessas proposições se encontrasse uma personalidade. O raciocínio ingênuo deduz imediatamente que se trata de espíritos. Algo semelhante costuma ser observado nas alucinações dos doentes mentais, se bem que neste caso possa reconhecer-se, com maior clareza, a mera ocorrência de ideias ou fragmentos de ideias em conexão com a personalidade consciente, constatável por qualquer um.

A tendência do complexo relativamente autônomo a personalizar-se explica a atuação extremamente “pessoal” da persona, a ponto do eu sentir-se em dificuldade frente à questão de sua “verdadeira” personalidade.

O que foi dito acerca da persona e de todos os complexos autônomos também é válido no que diz respeito à anima: ela é igualmente uma personalidade e por isso pode ser facilmente projetada numa mulher. Em outras palavras, na medida em que a anima for inconsciente, sempre será projetada, uma vez que todo o inconsciente é projetado.

A primeira portadora da imagem da alma é sempre a mãe; depois, serão as mulheres que estimularem o sentimento do homem, quer seja no sentido positivo ou negativo. Sendo a mãe, como dissemos, a primeira portadora dessa imagem, separar-se dela é um assunto tão delicado como importante, e da maior significação pedagógica. Encontramos por isso, já entre os primitivos, um grande número de ritos que organizam tal separação. Não é o bastante passar para a idade adulta e nem mesmo separar-se exteriormente da mãe; são celebradas consagrações como homem, particularmente impressionantes, e cerimônias de renascimento que efetivam plenamente o ato de separação da mãe (e, portanto, da infância).

Assim como o pai protege o filho contra os perigos do mundo externo, representando um modelo da persona, a mãe é a protetora contra os perigos que o ameaçam do fundo obscuro da alma. Nos ritos de puberdade, o neófito recebe instruções acerca das coisas do “outro lado”, e isto o tornará capaz de dispensar a proteção materna.

O homem moderno civilizado terá que sentir forçosamente a falta desta medida educacional que, apesar de seu primitivismo, é excelente. A consequência desta lacuna é que a anima, sob a forma da imago materna, é transferida para a mulher. Depois do casamento, é comum o homem tornar-se infantil, sentimental, dependente e mesmo subserviente; em outros casos, torna-se tirânico, hipersensível, constantemente preocupado com o prestígio de sua masculinidade superior.

Este caso é o contrário do primeiro. A proteção contra o inconsciente, representada pela mãe, não é suprimida de forma alguma na educação do homem moderno; seu ideal de casamento se transforma, portanto, no desejo inconsciente de encontrar uma esposa que se desincumba do mágico papel de mãe. Sob o pretexto de um casamento idealmente exclusivo, o homem procura na realidade a proteção materna, colocando-se à mercê do instinto possessivo da mulher.

Seu temor do poder obscuro e inabarcável do inconsciente faz com que outorgue à esposa uma autoridade ilegítima sobre ele; uma união desse tipo se assemelha a uma “sociedade secreta”, tão íntima que ameaça explodir a qualquer instante, pela tensão interna. No caso oposto, quando o homem é reativo, ele atua de modo contrário, mas com o mesmo resultado.

Em minha opinião, o homem moderno deve diferenciar-se não só da persona, como da anima. Parece que nossa consciência se volta principalmente para fora (em consonância com a alma ocidental), deixando as coisas interiores mergulhadas na obscuridade. No entanto, tal dificuldade pode ser facilmente superada, se considerarmos com espírito crítico e com toda concentração o material psíquico da nossa vida particular e não apenas os acontecimentos exteriores.

Infelizmente estamos acostumados a silenciar pudicamente esse lado interior (talvez com medo de que nossas mulheres traiam certos segredos); e se estes forem descobertos, reconheceremos, cheios de arrependimento, nossa “fraqueza”, já que o único método educativo consiste na supressão ou repressão das fraquezas, ou a exigência que se as esconda do público. Será bom acrescentar que isso não adianta coisa alguma.

Tomemos o exemplo da persona para esclarecer o que realmente deveríamos experimentar. Na persona, tudo é claro e visível, enquanto que a anima jaz na obscuridade para nós, ocidentais.

Há casos em que a anima impede excessivamente as boas intenções da consciência, criando um contraste entre a vida particular do indivíduo e sua esplêndida persona; o caso oposto e equivalente é o do indivíduo ingênuo, que nada sabe acerca da persona e que tropeça no mundo com as mais penosas dificuldades. Há pessoas que não possuem uma persona desenvolvida – “canadenses que desconhecem a cortesia rebocada de cal da Europa”, indivíduos que cometem gafes em sociedade, perfeitamente ingênuos e inocentes, crianças comovedoras, sentimentais enfadonhos, ou então, quando são mulheres, Cassandras espectrais, temidas por sua falta de tato, eternamente incompreendidas, que nunca sabem o que fazem e por isso merecem o constante perdão, cegas para o mundo, sempre em sonhos. Tais casos nos mostram como uma persona descuidada atua e o que se poderia fazer para remediar o mal. Indivíduos assim poderiam evitar desilusões e sofrimentos de toda espécie, cenas e violências, se aprendessem a comportar-se no mundo.

Deveriam procurar saber o que a sociedade lhes pede, reconhecer que há no mundo fatores e pessoas muito superiores a eles; deveriam tentar perceber o significado de suas ações na perspectiva alheia etc. Naturalmente, para quem haja desenvolvido sua persona de modo conveniente, este plano pedagógico não passa de uma cartilha para crianças. Se compararmos dois indivíduos, um possuidor de uma esplêndida persona e outro desprovido dela, constataremos que o primeiro está tão informado sobre o mundo quanto o segundo sobre a anima e seus assuntos. Mas o uso que ambos fazem de seus conhecimentos pode muito bem ser um abuso, e provavelmente o será.

O homem dotado de persona não tem a menor ideia das realidades interiores, do mesmo modo que o tipo a ele oposto não reconhece a realidade do mundo que, segundo lhe parece, tem apenas o valor de um pátio de recreio divertido ou fantástico. Mas o reconhecimento das realidades interiores é absolutamente necessário, uma conditio sine qua non para que se considere com a seriedade necessária o problema da anima. Se o mundo exterior não passa de um fantasma, para que o esforço de estabelecer um complicado sistema de relação e adaptação a ele? Paralelamente, considerando-se as realidades interiores “mera fantasia”, ninguém reconhecerá nas manifestações da anima outra coisa além de tolices e fraquezas.

Mas se for reconhecido o fato de que o mundo está fora e dentro, e que portanto a realidade vem tanto do exterior como do interior, logicamente dever-se-á considerar os transtornos e inconvenientes que surgem do íntimo como sintomas de uma adaptação defeituosa às condições do mundo interior. Os esbarrões que os ingênuos sofrem no mundo não podem ser resolvidos pela repressão moral e de nada lhes adianta resignar-se com as próprias “fraquezas”, reconhecendo-as. Há razões, intenções e consequências, que podem ser trabalhadas pela vontade e pela compreensão. Tomemos, por exemplo, o tipo do benfeitor público, o homem “sem mácula”, temido em casa pela mulher e pelos filhos por seu caráter irascível e humor explosivo. Qual o papel da anima nesses casos?

Veremos sua função, se acompanharmos acompanharmos o curso natural dos acontecimentos. A esposa e os filhos apartar-se-ão dele que, sem dúvida, se lamentará do vácuo formado em seu redor e da insensibilidade da família. As coisas talvez fiquem piores do que antes e o alheamento dos familiares será absoluto. Se os bons espíritos não o tiverem abandonado, ele perceberá seu isolamento e em sua solidão começará a compreender o que determinou tal estado de coisas.

Talvez se interrogue, admirado: “Que demônio se apoderou de mim?” Provavelmente não alcançará o sentido desta metáfora. Seguem-se o arrependimento, a reconciliação, o esquecimento, a repressão e, em seguida, uma nova explosão. Evidentemente, a anima tenta provocar uma ruptura. Tal tendência não trabalha, é claro, em benefício de ninguém. Mas a anima se interpõe como se fosse uma amante ciumenta que procura indispor o homem com sua família. Um cargo ou qualquer outra posição social vantajosa pode produzir o mesmo efeito, mas neste caso compreender-se-á a força de sedução. Mas a anima, donde provém seu poder aliciante?

Como no caso da persona, pode ser que se trate de valores ou outras coisas importantes e eficazes, promessas sedutoras. Mas devemos nos proteger de início contra as racionalizações. Poderíamos pensar imediatamente que esse homem de bem está de olho numa outra mulher. Pode ser, mas também pode ser que a anima tenha preparado este meio eficaz para atingir sua meta. Não devemos enganar-nos considerando tal situação como um fim em si mesmo, uma autofinalidade, pois o homem de bem, que se casou corretamente segundo a lei, poderá também divorciar-se com a mesma dignidade e segundo a lei. Entretanto, isto não mudaria em nada sua atitude fundamental: o antigo quadro apenas ganharia uma nova moldura.

Na realidade, tais arranjos representam um método frequente de concluir separações e dificultar as soluções definitivas. Seria mais razoável, portanto, que se descartasse a possibilidade imediata da intenção autêntica de uma ruptura. Parece mais indicado começar pela investigação do que se oculta atrás da tendência anímica. Eu proporia em primeiro lugar uma objetivação da anima, ou seja, a negação estrita de considerar a tendência à separação do cônjuge como uma fraqueza própria. Só depois poder-se-ia perguntar à anima: “Por que desejas esta ruptura?” Há uma grande vantagem em colocar a questão de modo tão pessoal: dessa forma a personalidade da alma é reconhecida, tornando-se possível estabelecer uma relação com ela. Quanto mais pessoal a considerarmos, tanto melhor.

Tudo isto parecerá ridículo às pessoas que estão acostumadas a agir de um modo puramente intelectual e racional. Seria mais do que absurdo manter um diálogo com a persona, dado o fato de esta ser apenas um meio de relação psicológica. Um absurdo, mas só para quem a tiver. Quem não a tiver será meramente um primitivo sob este aspecto; e pertencerá àquele tipo de pessoas que se apoiam num pé só naquilo que comumente chamamos realidade.

O outro pé está no mundo dos espíritos, que para ele é efetivamente real. O caso exemplar que escolhemos se comporta no mundo, como um europeu moderno, e no mundo dos espíritos, como o filho de um troglodita. Deve conformar-se, portanto, com uma espécie de escola para crianças da pré-história, até chegar a uma ideia justa acerca dos poderes e fatores de um outro mundo. Não errará compreendendo a figura da anima como um complexo autônomo, dirigindo-lhe perguntas de cunho pessoal. Considero tal coisa como uma verdadeira técnica. Todos sabem que têm a peculiaridade e a capacidade de dialogar consigo mesmos. Sempre que nos encontramos diante de um dilema angustioso costumamos dirigir a nós próprios (senão a quem?) a pergunta: “Que fazer?” Fazemo-lo em voz alta ou baixa.

E nós mesmos (senão quem?) respondemos. Uma vez que temos a intenção de sondar os fundamentos básicos do nosso ser, pouco nos importa viver como que numa espécie de metáfora. Devemos interpretar como um símbolo do nosso atraso primitivo (ou da nossa naturalidade que ainda persiste, graças a Deus) o fato de conversarmos pessoalmente, a modo dos primitivos, com a nossa “serpente”. Mas como a psique não é uma unidade e sim uma pluralidade contraditória de complexos, não é muito difícil chegar à dissociação necessária para discutir com a anima. Tal arte ou técnica consiste em emprestar uma voz ao interlocutor invisível, pondo à sua disposição, por alguns momentos, o mecanismo da expressão; deixemos de lado a aversão natural por esse jogo aparentemente absurdo consigo mesmo, assim como a dúvida acerca da “autenticidade” da voz do interlocutor. Este último detalhe é de grande importância. Identificamo-nos sempre com os pensamentos que nos assaltam, uma vez que nos consideramos seus autores.

É interessante observar que são os pensamentos impossíveis que despertam em nós um sentimento de maior responsabilidade subjetiva. Se percebêssemos com mais acuidade como são severas as leis universais às quais deve submeter-se até mesmo a fantasia mais selvagem e arbitrária, talvez seríamos mais capazes de considerar tais pensamentos como fatos objetivos, como se fossem sonhos. Não passa pela cabeça de ninguém supor que estes últimos sejam invenções intencionais e arbitrárias. Mas tudo exige, certamente, a máxima objetividade e ausência de preconceitos; só assim proporcionaremos ao “outro lado” a oportunidade de manifestar-se mediante uma atividade psíquica perceptível.

A atitude repressiva da consciência obriga, porém, que o outro lado se manifeste indiretamente, através de sintomas, quase sempre de caráter emocional. Só em momentos de um afeto avassalador, emergem à superfície fragmentos de conteúdos do inconsciente, sob a forma de pensamentos ou imagens. O sintoma inevitável que acompanha tal fenômeno é o da identificação momentânea do eu com essas manifestações, que são renegadas logo depois. É fabuloso o que se pode dizer movido pelo afeto. Mas todos sabem com que facilidade essas coisas são esquecidas e renegadas. Devemos contar com tais mecanismos de desvalorização e de negação se quisermos orientar-nos com objetividade.

O hábito de interromper o afluxo do inconsciente, corrigi-lo ou criticá-lo se reforçou pela tradição e pelo medo que se tem de admitir diante dos outros ou de si mesmo a angústia mobilizada pelas verdades insidiosas, compreensões arriscadas e constatações desagradáveis; o receio, enfim, de tudo o que faz o homem fugir de si mesmo como de um flagelo. Diz-se geralmente que preocupar-se consigo é algo de egoístico e “mórbido”, e que a própria companhia é a pior de todas: “torna a pessoa melancólica”. Tais são os esplêndidos testemunhos acerca da nossa qualidade humana, intrínsecos à mentalidade ocidental. Mas os que assim pensam nunca perguntam a si mesmos que prazer terão os outros em companhia de um covarde tão sujo. Uma vez que nos momentos de afeto se mostram involuntariamente as verdades do outro lado, é aconselhável aproveitar esses momentos para que tal aspecto tenha a ocasião de expressar-se. Por isso o indivíduo deveria cultivar a arte de falar consigo mesmo numa situação de afeto e em seus marcos, como se o próprio afeto falasse, sem levar em conta a crítica razoável.

Enquanto o afeto se manifesta, a crítica deve ser evitada. Entretanto, logo que o afeto haja exposto seu caso, será conscienciosamente criticado, como se o interlocutor fosse um indivíduo real, diretamente relacionado conosco. Não devemos dar-nos logo por satisfeitos; as perguntas e respostas deverão prosseguir até que se haja encontrado um final satisfatório da discussão. Subjetivamente, reconhecer-se-á se o resultado é ou não aceitável, sendo inútil qualquer tentativa de iludir-se. As condições indispensáveis desta técnica de educar a anima se resumem numa rigorosa honestidade consigo mesmo e em evitar a antecipação apressada do que o outro lado quer expressar.

Mas há algo a dizer acerca do medo característico que o homem ocidental sente em relação ao outro lado. Em primeiro lugar, este medo não é completamente injustificado, além de ser real. Compreendemos sem dificuldade o medo que a criança e o primitivo sentem diante do mundo amplo e desconhecido. Pois é o mesmo medo que experimentamos em nosso mundo interior infantil, que se nos afigura imenso e desconhecido. Sentimos somente o afeto, sem perceber que se trata de um medo do mundo, uma vez que esse mundo é invisível.

A seu respeito só temos preconceitos teóricos ou ideias supersticiosas. E há pessoas cultas diante das quais não podemos falar do inconsciente sem sermos acusados de misticismo. O medo a que nos referimos é, pois, legítimo, pois os dados do outro lado conseguem abalar nossa concepção racional do mundo, com suas certezas científicas e morais; a crença ardente que nelas depositamos faz supor quão frágeis são. Se pudermos evitar isto, a única verdade recomendável é o enfático ditado dos filisteus: “quieta non movere”; devo sublinhar, além disso, que não recomendo a ninguém a técnica acima exposta, como algo de necessário e útil, se a pessoa não for premida pela necessidade. Como já dissemos, os estádios são muitos: há velhos que morrem como crianças de peito e ainda hoje nascem trogloditas. Certas verdades só serão reconhecidas no futuro; outras passaram e outras jamais serão aceitas.

O leitor poderá perguntar, admirado: “Mas o que a anima desencadeia para que sejam necessárias tantas precauções antes de tratar com ela?” Eu recomendaria então ao leitor que estudasse a história comparada das religiões, procurando preencher essas narrações mortas com a emoção da vida; desse modo é que foram experimentadas por aqueles que as viveram.

Creio que assim poderiam ter uma ideia da realidade que vive do outro lado. As velhas religiões, com seus símbolos sublimes e ridículos, carregados de bondade e de crueldade, não nasceram do ar, mas da alma humana, tal como vive em nós neste momento. Todas essas estranhas coisas, suas formas originárias nos habitam e podem precipitar-se sobre nós a qualquer momento, com uma violência destruidora, sob a forma de sugestão das massas, contra a qual o indivíduo é impotente.

Os deuses terríveis mudaram apenas de nome, eles rimam agora com “ismo”. Será que alguém se atreveria a afirmar que a Guerra Mundial ou o bolchevismo foram invenções engenhosas? Vivemos exteriormente num mundo em que continentes podem submergir a qualquer instante, os polos deslocar-se, ou uma nova pestilência fazer sua irrupção; paralelamente, vivemos interiormente num mundo em que algo semelhante pode acontecer, sob a forma de uma ideia, nem por isso menos perigosa e nociva.

A desadaptação ao mundo interior é uma omissão de graves consequências, tal como a ignorância e a incapacidade frente ao mundo exterior. Só uma ínfima parte da humanidade, na superpovoada península asiática projetada sobre o Atlântico, e que se considera “culta” por sua falta de contato com a natureza, concebeu a ideia de que a religião é uma forma peculiar de perturbação mental, cuja meta é incompreensível. Considerada de uma distância segura, da África Central ou do Tibet, parece que essa fração humana projetou seu próprio “dérangement mental” inconsciente sobre os povos que ainda possuem instintos saudáveis.

As coisas do mundo interior nos influenciam subjetiva e poderosamente, por serem inconscientes. Assim, pois, quem quiser incrementar o progresso em seu próprio ambiente cultural (pois toda a cultura começa com o indivíduo), deverá tentar objetivar as atuações da anima, cujos conteúdos subjazem a essas atuações. Nesse sentido, o homem se adaptará e ao mesmo tempo se protegerá contra o invisível. Toda adaptação resulta de concessões aos dois mundos.

Da consideração das exigências do mundo interno e do mundo externo, ou melhor, do conflito entre ambos, procederá o possível e o necessário. Infelizmente, o espírito ocidental, desprovido de cultura em relação ao problema que nos ocupa, jamais concebeu um conceito para a união dos contrários no caminho do meio. Esta pedra de toque fundamental da experiência interior não tem, entre nós, nem mesmo um nome para figurar ao lado do conceito chinês do Tao. Esta realidade é ao mesmo tempo a mais individual e a mais universal, o cumprimento legítimo do significado da existência humana.

No desenvolvimento desta exposição tratei, até agora, exclusivamente da psicologia masculina. A anima, sendo feminina, é a figura que compensa a consciência masculina. Na mulher, a figura compensadora é de caráter masculino e pode ser designada pelo nome de animus. Se não é simples expor o que se deve entender por anima, é quase insuperável a dificuldade de tentar descrever a psicologia do animus.

O homem atribui a si mesmo, ingenuamente, as reações da sua anima, sem perceber que na realidade não pode identificar-se com um complexo autônomo; o mesmo ocorre na psicologia feminina, só que de um modo muito mais intenso, se é que isto é possível. A identificação com o complexo autônomo é a razão essencial da dificuldade de compreender e descrever o problema, sem falar de sua obscuridade e estranheza. Sempre partimos do pressuposto ingênuo de que somos os senhores em nossa própria casa.

Deveríamos habituar-nos, no entanto, com a ideia de que mesmo em nossa vida psíquica mais profunda, vivemos numa espécie de casa cujas portas e janelas se abrem para o mundo: os objetos e conteúdos deste último atuam sobre nós, mas não nos pertencem. A maioria das pessoas não concebe sequer esta ideia, e aceita com dificuldade o fato de que seus vizinhos não têm a mesma psicologia que a sua. O leitor poderá julgar exagerada tal observação, uma vez que geralmente todos são conscientes das diferenças individuais. Lembremo-nos, porém, que a psicologia da consciência provém de um estado original de inconsciência e de indiferenciação.

Não se pode afirmar ipso facto que a mulher tem uma consciência inferior à do homem: sua consciência simplesmente é diversa da consciência masculina. Mas assim como a mulher percebe claramente coisas que o homem tateia no escuro, do mesmo modo há campos de experiência do homem ainda ocultos para ela nas sombras da indiferenciação. Isto sucede no que se refere a coisas que têm, para a mulher, pouco interesse. O mais importante e interessante para a mulher é o âmbito das relações pessoais, passando para o segundo plano os fatos objetivos e suas inter-relações. O vasto campo do comércio, da política, da tecnologia, da ciência, enfim todo o reino do espírito utilitário aplicado do homem é relegado à penumbra da consciência feminina; por seu lado, ela desenvolve uma consciência ampla das relações pessoais, cujas nuanças infinitas em geral escapam à perspicácia masculina.

É claro, portanto, que o inconsciente feminino apresenta aspectos essencialmente diversos dos que são encontrados no homem. Se eu tivesse que caracterizar, resumindo em poucas palavras, a diferença entre homem e mulher no tocante ao problema que nos ocupa, isto é, como se confrontam anima e animus, eu diria: assim como a anima produz caprichos, o animus produz opiniões; e assim como os caprichos do homem brotam de um fundo obscuro, do mesmo modo as opiniões da mulher provêm de pressupostos apriorísticos inconscientes.

As opiniões do animus apresentam muitas vezes o caráter de sólidas convicções, difíceis de comover, ou de princípios cuja validez é aparentemente intangível. Se analisarmos, porém, tais opiniões, logo depararemos com pressupostos inconscientes que deveriam ser provados, de início; em outras palavras, as opiniões foram concebidas como se tais pressupostos existissem. Na realidade, essas opiniões são totalmente irrefletidas; existem prontinhas e são mantidas com tal firmeza e convicção pela mulher que as formula, como se esta jamais tivesse tido a menor sombra de dúvida a respeito.

Poder-se-ia supor que o animus, à semelhança da anima, se personifica como um homem. A experiência, porém, mostra que tal suposição é só parcialmente verdadeira; aparece uma circunstância inesperada, configurando uma situação inteiramente diversa da do homem. O animus não se apresenta como uma pessoa, mas como uma pluralidade de pessoas. Na novela de H.G. Wells, Christina Alberta’s Father, a heroína, em todas as suas ações, sente-se submetida à vigilância de uma autoridade moral superior; esta última adverte-a inexoravelmente, com precisão e uma falta absoluta de fantasia, dizendo com secura e exatidão o que ela está prestes a fazer e por que motivos. Wells chama a esta autoridade “Court of Conscience”. Esta pluralidade de juízes que condenam formam uma espécie de tribunal que corresponde a uma personificação do animus.

O animus parece uma assembleia de pais e outras autoridades, que formula opiniões incontestáveis e “racionais”, ex cathedra. Examinando-as atentamente, percebe-se que parecem constituídas de palavras e conceitos reunidos, talvez inconscientemente, desde a infância e amontoados numa espécie de cânone da verdade, autenticidade e razoabilidade médias. É um tesouro de pressupostos que, ao faltar um critério consciente e idôneo (o que não é raro), sugere imediatamente uma opinião. Às vezes esse tipo de opinião aparece sob a forma do assim chamado senso comum; outras vezes, revela um preconceito mesquinho, ou então se manifesta sob a forma de um princípio disfarçado em ensinamento. “Não há quem não faça assim”, ou “todo mundo diz isso ou aquilo” etc.

Evidentemente, o animus é projetado com a mesma frequência que a anima. Os homens adequados para a projeção são imagens vivas do bom Deus, sabem absolutamente tudo, ou são reformadores incompreendidos, cujo rico vocabulário é composto de palavras de vento; são especialistas em traduzir toda espécie de coisas humanas demasiado humanas em termos bombásticos da “experiência fecunda”. O animus não estaria suficientemente caracterizado se o representássemos apenas como uma consciência moral coletiva e conservadora; ele é também um reformador que, em contraste com suas opiniões sensatas, tem um fraco pelas palavras difíceis e desconhecidas, agradável sucedâneo da odiosa reflexão.

Do mesmo modo que a anima, o animus é um amante ciumento, pronto para substituir um homem de carne e osso por uma opinião sobre ele, opinião cujos fundamentos duvidosos nunca são submetidos à crítica. As opiniões do animus são sempre coletivas e negligenciam os indivíduos e todos os julgamentos individuais; dessa forma, o animus procede exatamente como a anima que se interpõe entre marido e mulher, com suas predições e projeções afetivas.

Se a mulher é bonita, a opinião do seu animus tem para o homem algo de infantil e tocante, que o ajuda a mostrar-se benevolente, paterno e professoral. Entretanto, se a mulher não tocá-lo do ponto de vista sentimental, e ele esperar de sua parte competência e não desamparo ou estupidez, as opiniões do animus o irritarão por sua falta de fundamento: não tolerará essa pseudo-opinião, esse mero desejo de ter direito à própria opinião etc. Nessas circunstâncias, os homens se tornam mordazes, pois é incontestável que o animus sempre provoca a anima (e vice-versa), fato que impossibilita o prosseguimento da discussão.

Nas mulheres intelectuais o animus origina um tipo de argumentação e raciocínio que pretende ser intelectual e crítico, mas na realidade consiste essencialmente em converter algum detalhe sem importância num absurdo argumento principal. Ocorre também que numa discussão, inicialmente clara, o argumento se enreda de um modo infernal pela intromissão de um ponto de vista diverso e mesmo petulante. Inconscientemente, tais mulheres só procuram irritar o homem, sucumbindo ao animus por completo. “Infelizmente, eu tenho sempre razão”, confessou-me uma mulher deste tipo.

Todos esses fenômenos, bastante conhecidos e desagradáveis, derivam da extraversão do animus. O animus não pertence à função de relação consciente; sua função é a de possibilitar a relação com o inconsciente. No que se refere às situações exteriores, sobre as quais é preciso refletir conscientemente, o animus não deve intervir mediante o processo acima referido das “opiniões”; como função associativa de ideias, deve ser dirigido para dentro, a fim de associar os conteúdos do inconsciente.

A técnica de explicação com o animus é, em princípio, a mesma que a da anima, só que neste se trata de opiniões. A mulher deve aprender a criticá-las e mantê-las à distância, não com o intuito de reprimi-las, mas investigar-lhes a procedência: penetrando mais fundo em seu obscuro recesso, deparará com as imagens originárias, do mesmo modo que o homem, ao explicar-se com a anima. O animus é uma espécie de sedimento de todas as experiências ancestrais da mulher em relação ao homem, e mais ainda, é um ser criativo e engendrador, não na forma da criação masculina.

O animus produz o que se poderia chamar λόγος σπερμαιχός, a palavra que engendra. Assim como o homem faz brotar sua obra, criatura plena de seu feminino interior, assim também o masculino interior da mulher procria germes criadores, capazes de fecundar o feminino do homem. É o caso da “femme inspiratrice”, a qual – se sua cultura não for verdadeira – pode transformar-se numa mulher dogmática da pior espécie, preceptora despótica, ou, na excelente definição de uma das minhas pacientes, uma forma de “animus hound”.

A mulher tomada pelo animus corre sempre o risco de perder sua feminilidade, sua persona adequadamente feminina. O homem, em iguais circunstâncias, arrisca efeminar-se. Tais transformações psíquicas do sexo explicam-se pelo fato de que uma função interior se volta para fora. O motivo desta perversão é, naturalmente, a insuficiência ou o desconhecimento total do mundo interior, que se ergue, autônomo, em oposição ao mundo exterior; as exigências de adaptação ao mundo interior igualam às do mundo exterior.

No tocante à pluralidade do animus, em contraposição à personalidade única da anima, tal fenômeno singular se me afigura um correlato da atitude consciente. A atitude consciente da mulher é geralmente muito mais pessoal do que a do homem. O mundo feminino é composto de pais e mães, irmãos e irmãs, maridos e filhos. E a realidade restante também se compõe de famílias semelhantes, que se relacionam umas com as outras, mas se interessam essencialmente por si mesmas.

O mundo do homem é o povo, o “Estado”, os negócios etc. Sua família representa um meio dirigido para uma finalidade, e é um dos fundamentos do Estado. Sua esposa não é necessariamente a mulher (pelo menos no mesmo sentido que ela pensa ao dizer “meu marido”). Para o homem, o geral precede o pessoal; daí o fato de seu mundo ser composto de uma multiplicidade de fatores coordenados, enquanto que para a mulher o mundo além do marido acaba numa espécie de nevoeiro cósmico. Assim, a exclusividade apaixonada liga-se à anima do homem e a pluralidade indefinida, ao animus da mulher.

Na imaginação masculina, paira uma imagem significativa e bem delineada de Circe ou Calipso, enquanto que o animus da mulher se exprime principalmente como os “Holandeses voadores” e outros desconhecidos hóspedes do mar, mais ou menos inacessíveis, proteus em constante movimento. Tais expressões aparecem de modo particular nos sonhos e na realidade concreta, sob a forma de tenores famosos, campeões de boxe, grandes homens de cidades distantes e desconhecidas.

Essas duas figuras crepusculares do fundo obscuro da psique, a anima e o animus (verdadeiros e semigrotescos “guardiões do umbral”, para usar o pomposo vocabulário teosófico), podem assumir numerosos aspectos, que encheriam volumes inteiros. Suas complicações e transformações são ricas como o próprio mundo, e tão extensas como a variedade incalculável do seu correlato consciente, a persona. Habitam uma esfera de penumbra, e dificilmente percebemos que ambos, anima e animus, são complexos autônomos que constituem uma função psicológica do homem e da mulher. Sua autonomia e falta de desenvolvimento usurpa, ou melhor, retém o pleno desabrochar de uma personalidade.

Entretanto, já podemos antever a possibilidade de destruir sua personificação, pois os conscientizando podemos convertê-los em pontes que nos conduzem ao inconsciente. Se não os utilizarmos intencionalmente como funções, continuarão a ser complexos personificados e nesse estado terão que ser reconhecidos como personalidades relativamente independentes.

Por outro lado, não podem ser integrados à consciência enquanto seus conteúdos permanecerem desconhecidos. No entanto, a tentativa de explicação com eles deverá trazer à luz seus conteúdos; só quando esta tarefa for cumprida, isto é, só quando a consciência familiarizar-se suficientemente com os processos inconscientes refletidos na anima, esta última será percebida como uma simples função.

Naturalmente, não espero que todos os leitores compreendam de imediato o que anima e animus significam. Confio apenas que não tenham a impressão de tratar-se de algo “metafísico”; os fatos são empíricos e poderiam ser vazados de igual modo em linguagem racional e abstrata.

 

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Um comentário em “Os Arquétipos da Anima e do Animus (Jung)

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