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Koans e Contos Zen Buddhistas: 4

Introdução

Koans são frases enigmáticas de difícil compreensão que são dadas aos discípulos, aos aspirantes. São muito utilizados no Zen, principalmente na escola Rinzai. Eles visam romper com os padrões de pensamento, com a dualidade de conceitos, com condicionamentos mentais.

Os koans sempre possuem respostas, ainda que estas respostas não sejam lógicas ou intelectuais.

As respostas dos koans são espontâneas, intuitivas e muitas vezes parecem tão absurdas quanto o próprio koan. Mas, em realidade, são cheias de profundo significado, tanto quanto o koan, ou até mais.

Muitos koans estão intrinsecamente relacionados com a Doutrina Budista ou com a história de uma tradição específica. Para quem não possui estes conhecimentos estes koans perdem muito de seus significados.

Um koan muito utilizado e que parece até ser apenas uma simples pergunta é “o que falta?”.

Os koans nos colocam num beco sem saída. Ficamos pressionados por dúvidas, conflitos dualistas, certo e errado, bem e mal. Nossas mentes logo começam a tecer considerações sobre as histórias dos koans. Pensamos: “como pode ser um Mestre?”, “como um Mestre comporta-se desta forma?”. Criamos expectativas, condições que devem ser preenchidas pelos outros e por nós mesmos, definimos “o caminho espiritual é isso ou aquilo”, “um santo é assim ou assado”, “um mestre deve comportar-se desta ou daquela forma”. Tudo o que não se encaixa em nossa forma limitada e condicionada de perceber a vida é rotulado como errado. Os koans servem para quebrar todos estes conceitos, com estes processos.

Em muitas histórias a Iluminação é alcançada em eventos absolutamente singelos como observar uma folha seca ou um travesseiro cair, observar um cachorro bebendo água, contemplar uma paisagem.

Entretanto, sempre queremos fugir da monotonia do presente, do cotidiano, de nossas misérias. Quando um koan nos é apresentado buscamos significados escondidos, ocultos, fantásticos. Porém, os koans apontam para simplicidade da vida, para realidade que está diante de nossos olhos, mas que não percebemos. Não existe nada velado, oculto, escondido. Os véus estão em nossas mentes.

Koans

31. Concentração

Após ganhar vários torneios de Arco e Flecha, o jovem e arrogante campeão resolveu desafiar um mestre Zen que era renomado pela sua capacidade como arqueiro.

O jovem demonstrou grande proficiência técnica quando ele acertou em um distante alvo na mosca na primeira flecha lançada, e ainda foi capaz de dividi-la em dois com seu segundo tiro.

“Sim!”, ele exclamou para o velho arqueiro, “Veja se pode fazer isso!”

Imperturbável, o mestre não preparou seu arco, mas em vez disso fez sinal para o jovem
arqueiro segui-lo para a montanha acima. Curioso sobre o que o velho estava tramando, o campeão seguiu-o para o alto até que eles alcançaram um profundo abismo atravessado por uma frágil e pouco firme tábua de madeira. Calmamente caminhando sobre a insegura e certamente perigosa ponte, o velho mestre tomou uma larga árvore longínqua como alvo, esticou seu arco, e acertou um claro e direto tiro.

“Agora é sua vez,” ele disse enquanto ele suavemente voltava para solo seguro.
Olhando com terror para dentro do abismo negro e aparentemente sem fim, o jovem não
pôde forçar a si mesmo caminhar pela prancha, muito menos acertar um alvo de lá.
“Você tem muita perícia com seu arco,” o mestre disse, percebendo a dificuldade de seu
desafiante, “mas você tem pouco equilíbrio com a mente que deve nos deixar relaxados para mirar o alvo.”

32. Professor de Sino

Um novo estudante aproximou-se do mestre Zen e perguntou-lhe como ele poderia absorver seus ensinamentos de forma correta.

“Pense em mim como um sino,” o mestre explicou. “Me dê um suave toque, e eu irei lhe dar um pequeno tinido. Toque-me com força e você receberá um alto e profundo badalo.”

33. O Elefante e a Pulga

Roshi Kapleau (um mestre Zen moderno) concordou em falar a um grupo de psicanalistas sobre Zen. Após ser apresentado ao grupo pelo diretor do instituto analítico, o Roshi quietamente sentou-se sobre uma almofada colocada sobre o chão. Um estudante entrou, prostrou-se diante do mestre, e então sentou-se em outra almofada próxima, olhando seu professor.

“O que é Zen?” o estudante perguntou. O Roshi pegou uma banana, descascou-a, e começou a comê-la.

“Isso é tudo? O senhor não pode me dizer nada mais?” o estudante disse.
“Aproxime-se, por favor.” O mestre replicou. O estudante moveu-se mais para perto e Roshi balançou o que restava da banana em frente ao rosto do outro. O estudante fez uma reverência e partiu.

Um segundo estudante levantou-se e dirigiu-se à audiência:

“Vocês todos entenderam?” Quando não houve resposta, o estudante adicionou:

“Vocês acabaram de testemunhar uma completa demonstração do Zen. Alguma questão?”

Após um longo silêncio constrangido, alguém falou.

“Roshi, eu não estou satisfeito com sua demonstração. O senhor nos mostrou algo que eu não tenho certeza de ter compreendido. DEVE existir uma maneira de nos DIZER o que é o Zen!”

“Se você insiste em usar mais palavras,” o Roshi replicou, “então Zen é ‘um elefante copulando com uma pulga…'”.

34. Livros

Hsüan-Chien, quando jovem, era um devoto estudante do buddhismo. Estudou muito os
conceitos e as doutrinas, e tornou-se muito hábil em analisar os termos complexos, e se
considerava um expert em filosofia buddhista. Aprendeu de cor o Sutra do Diamante, e
orgulhosamente escreveu um longo comentário sobre ele.

Um dia, sabendo que em Hunan havia um grande sábio que dizia coisas que ele não
concordava, resolveu viajar até lá para provar, através de seu conhecimento, que o pretenso sábio estava errado. Ele pegou seu comentário Qinglong sobre o Sutra do Diamante e partiu.

No caminho, encontrou uma velha que vendia bolinhos de arroz. Cansado e com fome, falou à senhora:

“Gostaria de comprar alguns bolinhos, por favor.”

“Que livros está carregando? “, perguntou a velha.

“É o meu comentário sobre o sentido verdadeiro do Sutra do Diamante,” disse orgulhoso,”
mas você não sabe nada sobre esses assuntos profundos.”

Após um pequeno momento em silêncio, a velha lhe disse:

“Vou lhe fazer uma pergunta, e se puder me responder eu lhe darei os bolinhos de graça. Se não, terá que ir embora, pois não vou lhe vender os bolinhos.”
Achando-se capaz de responder qualquer pergunta, quanto mais de uma pessoa sem os seus anos de conhecimentos nos termos filosóficos, disse:

“Muito bem, pergunte-me”.
“Está escrito no Vajracchedika que a Mente do passado é inatingível, a Mente do futuro é
inatingível e a Mente do presente é inatingível; diga-me então: com qual Mente você vai se alimentar?”

Estupefato, Hsüan-chien não soube o que dizer. A velha levantou-se e comentou:

“Sinto muito, mas acho que terá que se alimentar em outro lugar”, e partiu.
Quando chegou no seu destino encontrou Longtan, o mestre do templo. Tinha chegado tarde, e ainda abalado com o encontro anterior, sentou-se silenciosamente em frente ao mestre, esperando que ele iniciasse o debate. O mestre, após muito tempo, disse:
“É muito tarde, e você está cansado. É melhor ir para seu quarto dormir.”
“Muito bem,” disse o intelectual, levantou-se e começou a sair para a escuridão do corredor.

O mestre veio de dentro do salão e comentou:

“Está muito escuro, tome, leve esta vela acesa,” e lhe passou uma das velas acesas do altar. Quando Hsüen-chien pegou a vela trazida pelo mestre, Longtan subitamente assoprou-a, apagando a luz e deixando ambos silenciosos em meio à escuridão. Neste momento Hsüanchien atingiu o Satori.

No dia seguinte, levou todos seus livros e comentários para o pátio e os queimou.

35. Obra de Arte

Um mestre em caligrafia escreveu alguns ideogramas em uma folha de papel. Um dos seus mais especialmente sensíveis estudantes estava observando. Quando o artista terminou, ele perguntou a opinião do seu pupilo – que imediatamente lhe disse que não estava bom.

O mestre tentou novamente, mas o estudante criticou também o novo trabalho. Várias vezes, o mestre cuidadosamente redesenhou os mesmos ideogramas, e a cada vez seu estudante rejeitava a obra.

Então, quando o estudante estava com sua atenção desviada por outra coisa e não estava
olhando, o mestre aproveitou o momento e rapidamente apagou os caracteres que havia
escrito no último trabalho, deixando a folha em branco.

“Veja! O que acha?,” ele perguntou. O Estudante então virou-se e olhou atentamente.
“ESTA… é verdadeiramente uma obra de arte!”, exclamou.

(Uma lenda diz que este é o conto que descreve a criação de arte do mestre Kosen, que por sua vez foi usada para criar o entalhe em madeira das palavras “O Primeiro Princípio”, que ornamentam o portão do Templo Obaku em Kyoto).

36. Buscando por Buddha

Um monge pôs-se a caminho de uma longa peregrinação para encontrar Buddha. Ele levou muitos anos em sua busca até alcançar a terra onde dizia-se que vivia Buddha. Ao cruzar o sagrado rio que cortava este país, o monge olhava em torno enquanto o barqueiro conduzia o bote. Ele percebeu algo flutuando em sua direção. Quando o objeto chegou mais perto, ele viu que era um cadáver – e que o morto era ele mesmo!

O monge perdeu todo o controle e deu um grito de dor à visão de si mesmo, rígido e sem vida, flutuando suavemente na corrente do grande rio.
Neste instante percebeu que ali estava começando sua busca pela liberação…
E então ele soube definitivamente que sua procura por Buddha havia terminado.

37. O Agora

Um guerreiro japonês foi capturado pelos seus inimigos e jogado na prisão. Naquela noite ele sentiu-se incapaz de dormir pois sabia que no dia seguinte ele iria ser interrogado, torturado e executado. Então as palavras de seu mestre Zen surgiram em sua mente:

“O “amanhã” não é real. É uma ilusão. A única realidade é “AGORA. O verdadeiro sofrimento é viver ignorando este Dharma”.

Em meio ao seu terror subitamente compreendeu o sentido destas palavras, ficou em paz e dormiu tranqüilamente.

38. Nada santo

Certa vez Bodhidharma foi levado à presença do Imperador Wu, um devoto benfeitor
buddhista, que ansiava receber a aprovação de sua generosidade pelo sábio. Ele perguntou ao mestre:

“Nós construímos templos, copiamos os sutras sagrados, ordenamos monges e monjas.

Qual o mérito, reverenciado Senhor, da nossa conduta?”
“Nenhum mérito, em absoluto”, disse o sábio.

O Imperador, chocado e algo ofendido, pensou que tal resposta com certeza estava
subvertendo todo o dogma buddhista, e tornou a perguntar:

“Então qual é o Santo Dharma, o Primeiro Princípio?”

“Um vasto Vazio, sem nada santo dentro dele”, afirmou Bodhidharma, para a surpresa do
Imperador. Este ficou furioso, levantou-se e fez sua última pergunta:

“Quem és então, para ficares diante de mim como se fosse um sábio?”

“Eu não sei, Majestade”, replicou o sábio, que assim tendo dito virou-se e foi embora.

39. Onde está sua mente?

Finalmente, após muitos sofrimentos, Shang Kwang foi aceito por Bodhidharma como seu discípulo. O jovem então perguntou ao mestre:

“Eu não tenho paz de espírito. Gostaria de pedir, Senhor, que pacificasse minha mente.”

“Ponha sua mente aqui na minha frente e eu a pacificarei!” replicou Bodhidharma.

“Mas… é impossível que eu faça isso!” afirmou Shang Kwang.

“Então já pacifiquei a sua mente.”, conclui o sábio.

40. A prática faz a perfeição

Um estudante de canto de ópera dramática treinou sob um rígido professor que insistia que ele recitasse dia após dia, mês após mês o mesmo trecho da mesma canção, sem jamais ser permitido ir adiante. Finalmente, oprimido pela frustração e desespero, o jovem fugiu em busca de outra profissão.

Uma noite, parando em uma estalagem, ele encontrou por acaso o anúncio de uma competição de recitação. Não tendo nada a perder, ele entrou na competição e, é claro, cantou a única passagem que ele conhecia tão bem.

Quando ele terminou, o patrocinador da competição congratulou-o efusivamente sua performance. A despeito das embaraçadas objeções do estudante, recusou-se a acreditar que havia escutado um cantor principiante.

“Diga-me,” perguntou o patrocinador, “quem é seu instrutor? Ele deve ser um grande
mestre!”

O estudante mais tarde tornou-se conhecido como o grande cantor japonês Koshiji.

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