A Caverna: Quem é você?

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Quando lhe perguntam: “Quem é você?”

– Qual a primeira coisa que lhe vem à cabeça?

Eu sou gerente do banco XYZ. Sou um empresário dono da ABC. A mãe/pai do Carlinhos e da Alice. Sou um orgulhoso brasileiro. Sou músico, talvez artista. Sou médico, engenheiro ou advogado. Sou amante da natureza, quem sabe das relações humanas. Quem é você?

Acredito que essa é uma pergunta que raramente seja feita, pelo menos, não com a profundidade que deveria ter para trazer realmente à tona o real ser.

Engraçado ter testemunhado isso a vida toda, na maioria das pessoas que cruzei. Sendo Fi dominante e Eneagrama 4w5, estripar todas as camadas do meu ser sempre foi o foco da minha vida. É uma bênção e uma maldição, terrível, muitas vezes.

A extrema autoconsciência é uma faca de dois gumes. De um lado, sempre senti que havia algo mais do que o que podem ver nossos limitados 5 sentidos. Está mais que provado, pois a cada novo instrumento, mais e mais sensível que é inventado, mais camadas do universo descobrimos, seja do microscópico e invisível à olho nu, seja por estar escondido no mundo subatômico ou, quem sabe, num dos confins do universo.

Logo, sempre senti aquela comichão, aquela sensação de que algo não estava certo na vida como todos vivem. Sempre me senti o Neo do filme Matrix e tendo esse vazio interior me pus a buscar.

Munido da minha poderosa Ne para encontrar opções e novos conhecimentos e pelo meu compasso interior Fi, busquei por onde pude. Das religiões à ciência. Do esoterismo à filosofia. Estudando muitas áreas de conhecimento, haja vista minhas 27 faculdades não concluídas, centenas de cursos feitos e livros lidos, quando todo o suco, a parte do conhecimento que sentia que precisava, havia sido expremido, era hora de me mexer novamente.

Entrevistei muitas e muitas pessoas. Não sou do tipo que conversa muito, bate papo, ainda mais no meio de várias pessoas ao mesmo tempo, sou péssimo nisso, mas basta a pessoa bobear, que já começo a querer descascar suas camadas, até onde ela se sentir confortável ou até onde ela tiver coragem.

Adorei quando li no eneatipo Quatro que nos relacionamentos e na vida não buscamos colecionar experiências, ou até mesmo felicidade, mas sim, profundidade.

Foi quando esbarrei no esoterismo e budismo zen, que nos impele a buscar a verdade dentro e não fora, que mergulhei em mim mesmo, só para descobrir que não havia fundo, nem bordas, muito menos limites. Assim como é em todos vocês.

Como todos, um dia estive diante de minha imensa caverna interior. Aquela caverna que a maioria dos extrovertidos sabe que existe, de vez em quando olha lá de longe para onde ela se encontra, lá no horizonte, e pensa: “Um dia eu prometo que darei uma olhada no que tem ali, mas não hoje, pois tem tanta coisa aqui fora ainda para ser vivida.”

Aquela mesma caverna onde os introvertidos se sentem mais seguros. Aquela, para a qual voltamos depois de um longo dia de trabalho, amigos, passeios gostosos e ela está lá, sempre pronta a nos acomodar.

Mesmo a maioria dos introvertidos apenas conheça as primeiras alas, pois nelas, já há tanto para ser explorado, tanto de maravilhoso, tanto de tenebroso, que muitas vezes passamos a vida só passeando, avaliando e apreciando ou, muitas vezes, temendo e tentando entender o que encontramos somente ali.

Hoje me veio uma inspiração para criar uma nova série de posts.

Aprender o que temos de melhor para dar ao mundo e conclamo vocês a fazerem o mesmo por si. Esse é o maior valor que vejo nessas teorias e tipo de conhecimento.

Essa inspiração veio quando me deparei com a descrição de Pierce sobre os INFPs, que se referindo à essa caverna mencionada e sobre como extrovertidos e introvertidos lidam com ela, ele observa que os INFPs se tornam verdadeiros espeleólogos.

Como ele me fez ver e, com razão, passamos praticamente nossa vida toda dentro dela, muitos de nós, protegido pela nossa Fi, não tememos descer até onde for possível, talvez até impossível.

Lá encontramos todo tipo de belezas e monstros terríveis, que apenas figuram nas alegorias do passado e histórias de fantasia.

A segunda parte da inspiração ocorreu  enquanto lia o Eneagrama 4 pela enésima vez, e lá também cita, que nossos sentimentos e emoções são tão fortes e importantes para nós, que quando não saudáveis, acabamos por literalmente confundir nossas emoções como sendo o próprio mundo. Já não há mais mundo. O mundo se torna apenas uma suave imagem refletida na superfície do nosso lago de emoções.

Alguns eventos mundanos provocam marolas, outros grandes ondas. Alguns refletem coisas lindas, sublimes, em outros momentos a água fica turva, lamacenta, poluída e negra. Noutras, ainda, torna-se uma areia movediça terrível, que nos puxa mais e mais para o fundo, tentando nos tomar a própria vida.

Eis tantos suicídios dentre os INFPs e Eneagramas 4. Algumas pessoas superficiais acham que é por medinho da vida, frescura ou fraqueza. Muitas vezes, isso está longe da verdade. Foi sim, porque descemos tão fundo em nosso lago, adentramos tanto em nossa caverna, que já não encontramos mais o caminho de volta.

Nem todos os Dantes possuem um Virgílio para guiá-los tão dentro do inferno e os trazer de volta. O caminho é tortuoso, escuro, confuso, temível. Um labirinto que muitos não conseguiram sair. Perdendo assim, sua sanidade e, às vezes, até a vida. Muitos dizem esse ter sido o triste destino do pobre Nietzsche.

Por sorte, em algum momento achei o fio de Ariadne, ainda consegui manter a fátua luz acesa em meu frasco de Galadriel e depois de décadas estou novamente de volta à superfície.

Trecho inspiração do Eneagrama 4:

Quatros sentem em si mesmos as profundezas a que os seres humanos podem descer, bem como as alturas para as quais podem ser elevados. Nenhum outro tipo de personalidade é tão habitualmente consciente dos potenciais e das fraquezas da natureza humana: os seres humanos são animais espirituais que ocupam um lugar desconfortável entre duas ordens de existência.

Quatros sentem ambos os lados de suas naturezas potencialmente conflitantes, e eles sofrerão intensamente ou estarão extasiados por causa deles. É por isso que, na melhor das hipóteses, os Quatros saudáveis ​​criam algo que pode tocar os outros profundamente, porque eles conseguiram entrar em contato com as profundidades ocultas da natureza humana, mergulhando profundamente na sua própria.

Ao fazê-lo, eles se transcendem e são capazes de descobrir algo universal sobre a natureza humana, fundindo conflitos pessoais e sentimentos divergentes na arte. 

Custou caro, anos, senão décadas.

No entanto, ao ler o trecho acima, que me comoveu muito, no texto do Eneagrama 4, que ao explorar tão fundo as emoções, por sermos existencialistas na alma e, por no fim, ao descer tão fundo transcendemos nosso próprio ser e, ao ultrapassar os limites do sujeito, tocamos algo mais profundo, chegamos no tecido da própria realidade do que é ser humano.

E isso é o que podemos trazer ao conhecimento dos outros. Esse é o nosso presente.

Ao transcender ao humano individual chegamos ao humano coletivo.

E é sobre isso que é essa série de posts “A Caverna”. Eu tentando compartilhar o que aprendi.

Achei uma coincidência muito interessante, haver 9 círculos infernais, 9 esferas celestes, e 9 níveis de desenvolvimento de cada eneatipo.

Não sei até onde desci nos níveis de desenvolvimento do Quatro, nem se cheguei a tocar o próprio tecido da realidade do que é se humano, mas gostaria de começar a relatar minhas viagens e o que vi, vivi, senti.

Sendo assim, quem sabe tocar a humanidade que tem em cada em de vocês, pois para aqueles que nunca adentraram sua caverna, nunca mergulharam em seu profundo lago, mal sabem que o mundo lá é imenso e interessante e precisamos disso para sermos realmente felizes e ter a paz interior.

Não a felicidade que nos foi vendida pela mídia, dos prazeres dos sentidos, bens materiais e altos cargos nas corporações. Acumular e gastar, acumular e gastar, como os ratinhos preso em sua roda, em sua gaiolinha.

Falo da felicidade autêntica, aquela de que mesmo quando tudo nos for tirado, estará lá.

Quem sabe não consigo inspirar algumas pessoas a tentarem se conhecer num nível que hoje nem imaginam. Só há um caminho para a felicidade, o autoconhecimento.

Se não sabes quem és, como fará a si mesmo feliz?

Talvez, você, num desses mergulhos profundos, consiga finalmente responder a pergunta que lhe foi feita no início deste texto, só que dessa vez, sem necessitar referenciar à nada fora de si mesmo.

 

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